sábado, 16 de julho de 2011

PROSTITUIÇAO, PROBLEMA DO MARAJÓ?


 “(...) que a prostituição vem da pobreza geral, da miséria proletária, da promiscuidade, das habitações coletivas, da falta de educação profissional e de trabalho honesto, dos lares desfeitos e defeituosos, do alcoolismo paterno, da infância desarrimada (...) desvirginadas muito cedo, antes mesmo da menarca, são varridas de casa pelos pais intolerantes e arbitrários, aliam-se às más companhias, são ultrajadas pelos patrões sem escrúpulos e pelos chefes que exploram sua dependência (...) que respeitam o anonimato e não lhes pede qualquer qualificação, a não ser a de seus dotes físicos” (Hélio Galvão apud FRANÇA, 1994, p. 146)


Figura 1: Mapa do Marajó - www.google.com/imagem, 2011
 A prostituição não é um problema apenas do Marajó, é de todo o Brasil. Os termos “pobreza, promiscuidade, habitações, educação, trabalho, lares, alcoolismo, infância, pais intolerantes, más companhias, etc”, deixam bem claro algumas da realidade que atravessam a história da sexualidade de crianças, adolescentes, jovens e adultos em todo o território brasileiro. Exemplo disso é o filme “Anjos do Sol”, de Rudi “Foguinho” Lagemann, lançado no Brasil no dia 18 de agosto de 2006. Esta realidade explica bem o termo prostituição que deriva do latim prosto, que quer dizer “estar às vistas, à espera de quem quer chegar ou estar exposto ao olhar público (...) é a prática sexual remunerada habitual e promíscua” (FRANÇA, 1994, p.145).
O elenco é composto entre outros por Antônio Calloni, Vera Holtz, Chico Diaz, Roberta Santiago, Otávio Augusto, Mary Sheyla, Darlene Glória (no papel da cafetina Vera), Bianca Comparato e a estreante Fernanda Carvalho, a protagonista, que tinha apenas onze anos na época das filmagens. Na sua primeira sessão pública, realizada durante o Miami International Film Festival, conquistou o prêmio do júri popular para Melhor Longa de Ficção Ibero-Americano. O filme explica de forma evidente como ocorre o abuso sexual e tráfico de crianças no Nordeste.

Figura 2: O nascer do Sol no rio Tajapuru - Marajó das Florestas, 2009
   No enredo do filme “Anjos do Sol”, Tadeu é um homem que recruta adolescentes para se prostituir. No verão de 2002, quando ele chega numa cidade do interior do Nordeste, foi a até a casa de uma família bem pobre, os pais venderam uma criança aproximadamente de 12 anos de idade que se chamava Maria (personagem central da trama).
Maria acreditava que iria morar na casa de uma tia no Rio de Janeiro. Os pais mentiram para vendê-la por viverem na pobreza e não terem condições de ter uma vida melhor. Eles fizeram a menina acreditar que teria uma vida melhor sendo criada por outra família. O caso de Maria não é isolado, ela encontra com outras meninas e fica presa na casa de Nazaré, uma cafetina que alicia as meninas e as vestes sensualmente para seus novos “padrastos” (parceiros sexuais) em leilões de meninas virgens em sua casa. O preço chega até R$ 5. 000,00 no leilão. 
Neste leilão Lourenço escolhe e compra duas meninas, a Maria e a Inês. Ele dá de presente Maria para seu filho Edgar desvirginá-la e fica com a Inês. Não conformado com situação de rejeição de Maria, Lourenço pede ao filho bata em Maria para que ela o obedeça. Depois que eles fizeram o programa com elas, Lourenço envia Inês e Maria para um prostíbulo localizado numa cidade pequena, próximo a um garimpo, na floresta Amazônica onde ficam as terras de Saraiva. 
Ao chegarem à casa de Saraiva, Inês e Maria são recebidas pelo seu novo padrasto. Saraiva compra roupas, perfumes, sapatos para as meninas com a condição delas fazerem o que ele mandar. Ele desconfiado pergunta se algumas delas sabem ler e escrever, mas o funcionário de Lourenço disse que não. Saraiva manifesta seu contragosto a prostitutas alfabetizadas porque atrapalha os negócios com eles e os fregueses.
À noite ele anuncia numa espécie de rádio que chegou novas meninas. Os homens do garimpo passaram a freqüentar a casa e a explorar todas as jovens entre elas Maria e Inês que não agüentando mais as condições de vida resolveram fugir, mas Inês foi capturada e como castigo foi arrastada na rua até morrer por um carro. Já Maria recebeu o castigo de servir todos os clientes á noite toda. 
Após meses sofrendo a exploração sexual e abusos, Maria consegue fugir do prostíbulo e atravessa o Brasil numa viagem de caminhão. Quando chega ao Rio de Janeiro o comércio do corpo se interpõe novamente na sua vida frente aos novos desafios da grande cidade.

No rio Tajapuru – Marajó das Florestas-Pa, muitas crianças, meninas na fase da adolescência e outras da juventude iniciam a experiência da vida sexual muito cedo e com múltiplos parceiros, mas com um diferencial espacial: nas balsas que navegam os rios da Amazônia. Essas meninas-mulheres são levadas pelo regime da força física e psicológica. Obrigadas nas relações de poder por suas famílias a deixarem suas casas para irem se prostituir.

Faces da Infância no rio Tajapuru - Marajó das Florestas / Pa

As águas do rio ditam o curso de vida de famílias do rio Tajapuru. A pobreza e o desespero. Mães deixam de lado seu instinto e entreguem suas filhas menores a adultos como única alternativa de sobrevivência. Sonhos roubados, sufocados. Crianças manipuladas, que fazem sexo por dinheiro. Meninas enganadas que oferecem seu corpo para satisfazer o prazer de adultos. Cenas fortes e inquietantes, desvios de conduta. O programa “Conexão Repórter” revela o lado obscuro da infância brasileira. A pureza trocada pelas leis do mercado do sexo.
            Ilha de Marajó, Pará. Aqui a exploração sexual infantil acontece nos rios. As balsas levam junto com as águas turvas, a inocência de crianças e adolescentes. Populações esquecidas pelo poder público.A maioria cresce sem ter acesso aos serviços básicos de saúde, saneamento, educação. O Conexão Repórter encontrou uma garota que tem apenas oito anos de idade. Sua companheira inseparável é uma boneca. Mas seu tempo para brincadeiras é curto. Ela tem que garantir a comida da família. E os que a exploram, sabem disso. Ela sai de canoa todos os dias com a mãe. Não é para pescar, mas para se prostituir.

Figura 3: Ilustração das balsas no rio Tajapuru - aluna Antônia Duarte, 2009
  Nas balsas as crianças sobem clandestinamente para fazer programas sexuais. Com o barquinho engatado, nossa personagem sobe na embarcação. Atracar na balsa é uma operação perigosa e clandestina. Em um flagrante inédito, um homem abraça a menina e os dois entram na cabine. Uma imagem comum no rio Tajapuru, Ilha de Marajó. Depois de meia hora, a menina volta da embarcação. Ela traz um balde com vísceras de boi. Esta foi a moeda de troca pela "visita" a balsa.
Nas paisagens do rio, a exploração sexual infantil ganha contornos dramáticos. As crianças se prostituem com a autorização e o incentivo das mães. Uma realidade cruel. Um destino implacável. O Conexão Repórter também mostra outro flagrante: uma mãe conversa pelo rádio amador com um dos tripulantes das balsas. Ela faz a ponte para a filha. Nós levamos as imagens para delegada da infância e juventude do Pará. Ela fica impressionada com o flagrante de exploração sexual. Nós identificamos a balsa Calile Camelly em Manaus, no Amazonas. Ela estava atracada no porto para manutenção. Entramos na embarcação. Mas a maioria nega o envolvimento de tripulantes com menores de idade.

 Bispo acusa os poderes públicos de se omitirem no combate a crimes

Um Estado em situação de ingovernabilidade, omisso diante da exploração sexual infantil e com forte presença do narcotráfico. O quadro descrito pelo bispo do Marajó, dom José Luiz Azcona, em entrevista em Belém, estende-se a todo o Pará a condição crítica observada no arquipélago.
O bispo, de 68 anos, que completou 21 anos à frente daquela prelazia, é autor da tese de doutorado “O Povo Marajoara na Ótica da Igreja Católica”, publicada no Brasil e na Itália. Estudioso e profundo conhecedor da vida na região, é um dos maiores defensores do povo do Marajó.
Em tom de indignação, dom Azcona, que está ameaçado de morte, fez pesadas críticas às diversas esferas do Poder Público, a quem considerou omissas com a região, apesar das freqüentes denúncias encaminhadas por entidades como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Criticou o sucateamento dos conselhos tutelares e destacou que os casos mais graves têm acontecido em Portel e afirmou que Breves “é um antro de perversão” e de “difícil convivência, por causa de crimes e falta de respeito com a mulher e o menor”.
Nesses locais, diz o bispo, crianças de 12 anos se prostituem em troca de comida ou de alguns trocados, muitas delas estimuladas pelos próprios pais. “Tenho que comunicar que não é uma problemática exclusiva da região do Marajó. Lá, está agravado”, afirmou. “Todo o Estado está tomado por essa execração que é a exploração sexual de menores.”
Outra área crítica destacada pelo bispo está localizada num trecho do rio Tajapuru, que margeia os municípios de Breves e Melgaço. Meninos e meninas de 12 a 16 anos aproveitam o percurso das balsas para subir nas embarcações e se prostituir em troca de carne ou óleo de cozinha. Pelo rio Tajapuru passam cerca de 75% da mercadoria e transporte humano movimentado na rota entre Belém até Macapá.

Figura 4: O rio Tajapuru, linha de acesso ao Alto Amazonas e outros locais, 2010
 “Essa vergonha pública ainda segue de modo intenso. Os prefeitos de Melgaço e Breves, o Ministério Público, todos conhecem (essa realidade). Ninguém mexeu um só dedo para arrancar essa abominação”, diz o bispo. “O Estado entrou numa situação de ingovernabilidade”. E acrescentou: “Esta realidade de desfalecimento ético não só das famílias, como do Poder Público, tem que ser denunciada claramente.”
Por conta das denúncias que vêm realizando, outros dois bispos - dom Flávio Giovenale, de Abaetetuba, e dom Erwin Krautler, bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) - também estão sendo ameaçados. Durante a 46ª Assembléia da CNBB, realizada em Indaiatuba, São Paulo, a entidade divulgou uma nota de solidariedade aos bispos ameaçados e que atuam na defesa dos direitos humanos e do meio ambiente na região amazônica. Existe uma proposta de que o documento seja encaminhado ao ministro da Justiça e à presidência da República.

Poder

O bispo do Marajó lembrou que há cerca de um ano e meio a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que se dedicava à exploração sexual e ao tráfico de seres humanos através da Guiana Francesa. Nos arquivos da organização criminosa, a polícia descobriu que 178 mulheres - 52 delas apenas em Breves - inclusive menores, haviam sido enviadas ao exterior através do esquema. “O responsável foi preso em Oiapoque. Apareceram seis advogados para tirá-lo da prisão. Isso indica o poder econômico de quem está por trás do tráfico de seres humanos”, diz o bispo.
No Aeroporto de Guarulhos, prenderam uma menina de 16 anos, de Portel, quando ela embarcava para Madri. Ela mesma disse: “Não sou a única. Dentro de alguns dias vêm outras mulheres”.
Em Portel, disse o bispo, há dois anos uma audiência pública foi realizada para tratar do abuso sexual contra uma menina de 14 anos, que, segundo dom Azcona, teria sido praticado pelo madeireiro Roberto Lobato da Cruz, filho do ex-prefeito da cidade, Ademar Terra da Costa.
Em 2006, as denúncias do bispo motivaram a ida a Portel de representantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. 'A Justiça ainda não aconteceu. ' Ele diz, ainda, que o promotor do caso foi afastado por conivência. “Ele pediu que elas (as menores) assinassem declaração de que tinham recebido 500 reais para mentir (que foram abusadas)”, afirma Azcona.
Também a estrutura do Estado para a reabilitação social está comprometida. Em dezembro, a delegacia de Portel tinha 61 presos num espaço para onze pessoas. Desses, 17 haviam sido acusados de envolvimento com o narcotráfico. Atualmente, segundo o bispo, todos estão soltos. Na carceragem feminina, das seis mulheres, cinco vinham do narcotráfico. Uma das detentas, sexagenária, era reincidente. “O tecido social do Marajó está se esfacelando cada vez mais. Dois prefeitos me disseram que, dentro de alguns anos, o narcotráfico iria eleger todos os prefeitos do Marajó”, afirma o bispo. “O Marajó está sendo refúgio de pessoas degeneradas.”
De acordo com a irmã Henriquetta Cavalcante, da CNBB, as denúncias de exploração sexual infantil e juvenil no Marajó foram levadas até a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh). “Nossa indignação gira em torno da passividade e da lentidão de órgãos para investigar essas denúncias”, diz a religiosa.

Coordenador da Pastoral do Menor diz que juízes não comunicam prisões

André Franzine, coordenador regional da Pastoral do Menor no Pará e Amapá que acompanhou o caso da menor L., presa com 20 homens em Abaetetuba, preferiu não dar detalhes sobre a atual situação da família da garota. Afirmou que o caso da menina é semelhante ao de muitas outras no Pará que são levadas à prostituição. Sem citar o município onde ocorreu o fato, ele relatou o caso de uma garota de oito anos que ganhava alguns centavos para deixar que os homens pegassem em seus seios. “Em geral, o nosso Pará é o lugar da impunidade”, afirma Franzine.
Ele afirma que o problema é maior nas áreas ao redor dos grandes projetos de mineração, a exemplo de Vila do Conde, sul do Pará e Santarém. “São meninas que não dão trabalho pra polícia. Há juízes que nem comunicam a Defensoria Pública que o menino ou a menina está preso”, afirma. Ele também criticou o atendimento às vítimas. “Continua tendo um conselho tutelar só. Tem delegado que sai sem camisa da sala de plantão, nem ouvindo o que a vítima tem a falar”. Cinco meses depois do caso da menor em Abaetetuba, ele diz que a delegacia do município se encontra da mesma forma e não possui carceragem feminina.
Ele ressaltou que o narcotráfico está fortemente relacionado com a pobreza do município e observou que somente em Abaetetuba os traficantes operam cerca de 200 bocas de fumo. Sobre a juíza Clarice Maria de Andrade, titular da Comarca de Abaetetuba na época em que a menor L. Foi presa, ele afirmou: “Ela faz parte do poder público. Ela não faz parte de uma ONG. É muita coragem ela jogar a culpa sobre o Poder Público”.

Secretário admite lentidão entre denúncias e o combate a problemas

O governo do Estado reagiu com cautela às declarações do bispo do Marajó, dom José Luiz Azcona, 68 anos. O secretário em exercício da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), Roberto Martins, disse que, em reunião em março passado, com dom Erwin Krautler, da Prelazia do Xingu, e dom Flávio Giovenale, de Abaetetuba, todas as reinvindicações sobre proteção de autoridades religiosas foram tomadas as devidas providências pelo Governo do Estado.
Ele explicou que, no caso do Programa de Proteção de Defensores de Direitos Humanos, seria no mínimo injusto com a atuação deles em prol da sociedade não mantê-los com segurança no local de atuação, ao contrário do que acontece com os protegidos pelo ProVita. Nesse programa, a pessoa ameaçada é transferida do local de atuação para ter maior segurança. Mas ele reconhece que a segurança não garante proteção total. “A proteção é limitada, porque o contigente policial é insuficiente para proteger o universo de pessoas ameaçadas”, declarou. O secretário informou que existem no Pará quase 300 pessoas ameaçadas e em torno de 100 sob proteção oficial.
Roberto Martins explicou que todas as denúncias sobre exploração sexual de crianças e adolescentes feitas pelo bispo foram encaminhadas aos órgãos estaduais competentes, como as polícias Militar, Civil e à Polícia Federal, que atua em parceria. “Está sendo concluído um diagnóstico para a conclusão do plano estadual de ações integradas para enfrentamento do problema na Santarém-Cuiabá e nos municípios do Marajó”, garantiu.
Ele reconheceu que há uma certa demora entre a denúncia e o combate do problema, mas já existem programas de retaguarda sendo executados em favor da criança e do adolescente no Marajó. O secretário não soube informar quando vão acontecer ações para prisão e indiciamento de acusados de exploração sexual ou tráfico de pessoas no Marajó. Ele sabe apenas que os dados levantados pela área de inteligência das policias Federal, Militar e Civil estão sendo cruzados. A assessoria da Secretaria de Segurança Pública também não deu informações sobre as medidas tomadas após as denúncias do Bispo.
A assessoria da Secretaria de Integração Regional (SEIR) informou que no início de maio os governos Federal e Estadual vão lançar em Portel o Plano de Desenvolvimento Sustentável para o arquipélago do Marajó. Em nota, a assessoria disse que, com relação à prostituição infantil, o Plano Marajó prevê a implementação de programa de Proteção social às crianças e aos adolescentes vítimas de violência, abuso e exploração sexual, do Ministério do Desenvolvimento Social.

Fontes:

FRANÇA, G.V.de. Prostituição: um enfoque políticosocial. Femina, Rio de Janeiro, v. 22, n.2, p. 145- 148, fev. 1994.

Postado por Joel Pantoja, acadêmico do Mestrado de Comunicação, Linguagens e Cultura - UNAMA, 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Belém do Pará e o Cinema

imagem retirada do site www.sciencephoto.com

“Em Belém, chegou primeiro o Vitascope de Edison. Foi em 29 de dezembro de 1896, no Theatro da Paz”.
(Cinema no Tucupi – Pedro Veriano).

O trecho acima refere-se a primeira sessão de cinema que a nossa Belém do Pará assistiu. O programa noticiado à época pelos jornais mostrava o Theatro Da Paz recebendo o Vitascope de Thomas Edison com direito a lugares em cadeiras e camarotes. A primeira sessão de cinema da capital paraense apresentava uma variedade de temas em seu programa. Um deles recuperado por uma das poderosas novas mídias apresenta o primeiro beijo do cinema. Esse pequeno filme de mais ou menos vinte segundos, era um dos mais populares filmes mostrado no Vitascope de Edison. “O Beijo”, retirado do palco do musical The Widow Jones,  foi dirigido por William Heise e executado pelos atores John C. Rice e May Irwin. De uma singeleza que beira o cômico, a produção chegou a ser considerada escandalosa no tempo de seu lançamento. Além desse filme, outros estavam nesse primeiro programa de cinema.

Primeira Parte: Namorada interrompida; Lutadores; Dança do Sol.
Segunda Parte: O beijo (o primeiro do cinema); Dança indígena; Um jardim.
Terceira Parte: Salvando a vida de um índio;Uma oficina de carpintaria em movimento; Uma praia em Nova York.
Quarta Parte:Brigas de grilo; Ataque de cavaleiro;Criança guardando patinhos.

No seu livro dedicado unicamente ao cinema paraense, Cinema no Tucupi, Pedro Veriano revela que no início da segunda década do século XX Belém tinha 12 cinemas funcionando. E não eram mais teatros alugados. Os novos comerciantes do ramo aprenderam que cinema podia ser um lençol branco esticado, alguns bancos corridos e um projetor de qualquer marca. O pioneirismo implicava em salas de bairros como o “Beco do Carmo”, e projeções “volantes”, como as que aconteciam em outubro no Arraial de Nazaré.
Em 24 de abril de 1912, Belém recebe a primeira casa construída exclusivamente para receber um estilo de atividade que muitos na época viam com olhar preconceituoso, o cinema. O Olympia, foi fundado por dois grandes empresários da época Carlos Teixeira e Antonio Martins, donos do Grande Hotel, construído no auge do período da borracha (onde hoje está o Hilton Hotel) e do Palace Theatre (na mesma quadra). Eles queriam fazer do cinema um ponto “chique” para atrair os freqüentadores do Teatro da Paz e, obviamente, os hóspedes de seu hotel. De acordo com o jornal A folha do Norte noticiou evento no dia seguinte a sua inauguração com as palavras:
Público do Cinema Olympia aguardando sessão no
terrace do Grande Hotel
imagem retirada do site www.cinamaolympia.com.br

 “Marcou um verdadeiro acontecimento nas rodas elegantes dessa capital, entre o que a sociedade tem de mais fino, de chic e culto, a inauguração do Cinema Olympia, realizada ontem no luxuoso edifício construído para esse fim à Praça da República, esquina da Rua Macapá.
Tudo que Belém tem de belo, de encantador e de alegre, concorreu com a sua presença para o brilhantismo da serata, dando por alguns momentos à nova casa de diversões, um aspecto delicioso de raro prazer, que bem traduz a ansiedade que se achava a nossa população por um centro onde pudesse experimentar a deliciosa sensação de viver que nos dá o contato com gente sadia e distinta que se diverte”.

imagem retirada do site www.cinematecaparaense.wordpress.com
Em 1920, surgia o Cinema Iracema. Competindo com o grande Cinema Olympia do grupo Teixeira & Martins, grupo esse que nesse período contava com cinco cinemas além do Olympia: o Guarani, na cidade Velha; o Íris no Reduto; o São João, na Praça Brasil; o Popular e o Poeira, ambos em Nazaré. O Iracema por algum tempo competiu no gosto da elite da população com o Olympia, como principal atrativo o Iracema lançava películas da Metro Golwyn Mayer, um dos estúdios de grande renome da época dourada do cinema.

Os Cinemas de Bairro
O Guarani, o Popular, o Íris, o Poeira, o São João e o gigante Rex eram salas de exibições modestas que se diferenciavam no preço, na falta de conforto (geralmente com bancos corridos de madeira) e nos filmes, que geralmente eram lançados em primeira mão no Olympia e no Iracema e somente depois nas salas de bairro.
Curiosamente o Rex, depois chamado de Vitória, dava a impressão em quem passava pela frente que era um dos menores da cidade. Não chegava nem mesmo a ter marquise para anunciar os filmes, limitando-se aos cartazes pendurados próximos à bilheteria. O Rex/Vitória localizava-se na Avenida Pedro Miranda – Pedreira.

Primeira e Segunda Classe
O Cinema Moderno, localizado em Nazaré e o Independência no Bairro de São Brás, tinham características peculiares: duas classes. A primeira classe composta de poltronas de madeira e a segunda de bancos corridos. As duas classes eram separadas por uma armação de madeira

O Caso Glória
Quando o Cinema Glória inaugurou em 1930 com a estréia do cinema falado em terras paraenses, sua primeira exibição não teve tanta sorte. Quem foi a première passou por enorme constrangimento: foi a noite em que estourou a Revolução de 30. Os homens foram conduzidos a um quartel próximo e as mulheres retornaram às suas casas sob escolta militar.

Cine Palácio
Em 12 de dezembro de 1959, com o slogan do primeiro logotipo anunciando “O máximo de luxo em conforto”, nascia o Cine Palácio que representou uma mudança de paradigma para o comércio cinematográfico local. Com estrutura que honrava o nome composta por 1300 poltronas estofadas, sistema central de ar-condicionado, mezzanino que seguia até o meio do salão, tapetes, estrutura para melhorar o som, lâmpadas nas laterais baixas das poltronas, projetores modernos entre outros detalhes. Porém todo esse glamour nascia em um período de crise nos cinemas de Belém. Nesse ano os cinemas dos bairros não conseguiam se manter e alguns fecharam suas portas. Não indiferentes a crise os maiores também passavam por grandes dificuldades.

Cinemas em Mosqueiro e Icoaraci
Icoaraci  e Mosqueiro também estavam incluídas no roteiro de cinema. Icoaraci contava com dois cinemas o Ipiranga e o Guanabara. Na ilha de Mosqueiro havia o Guajarino, localizado na Praça Matriz/Vila, que conseguiu sobreviver até 1976. Nos anos de 1955 e 1957 foi montado também nos períodos de férias de julho um cinema no antigo Mercado do Chapéu Virado, que antes funcionava como uma escola pública.

A Força do Cinema
Retirada das poltronas do Cinema Nazaré.
fotografia obtida pelo blog podevideo 
Talvez o que mais impressione nas diversas crises atravessadas pelo cinema, que podem ser testemunhadas por nós nos momentos em que perdemos nossas históricas salas, seja a força original dele. As batalhas nas quais as salas de cinema da nossa cidade protagonizaram foram inúmeras e como sabemos a exceção do Cinema Olympia, o mais velho em funcionamento no Brasil, todos tiveram seu fim. Contudo nessa guerra ou nesse drama que desfila uma vasta galeria de vilões lutando com seus múltiplos poderes, estamos assistindo a algo que nos leva a constatar que com sua única arma as salas de exibição provam que podem resistir, apesar de se apresentarem hoje sob um novo conceito de salas de exibição: a magia do cinema. A televisão, o videocassete, o DVD a Internet, nada consegue reproduzir isso. Como costumávamos ler nas salas do saudoso Grupo Severiano Ribeiro:

Projetores sendo retirados do Cinema Nazaré
Imagem: blog podevideo
CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO.



Cinema Olympia
(Caetano Veloso)
Não quero mais essas tardes mornais, normais
Não quero mais video tapes, mormaço, março, abril
Eu quero pulgas mil na geral
Eu quero a geral
Eu quero ouvir gargalhada geral
Quero um lugar pra mim, pra você
Na matinê do cinema Olympia
Do cinema Olympia
Na matinê do cinema Olympia
Do cinema Olympia
Na matinê do cinema Olympia
Do cinema Olympia
Tom Mix, Bulk Jones
Vela e palco
Sorvetes e vedetes
Socos e coladas
Espartilhos
Pernas e gatilhos
Atilhos gargalhada geral
Do meio-dia até o anoitecer

Postado por Raimundo Tocantins. Aluno do Mestrado Comunicação,Linguagens e Cultura - UNAMA.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

MADEIRA DE SANGUE
(Guinga)
Tem cigarra nova no oco, pica-pau dá troco no toco... Todo esse povinho vai ficar sem ninho se a matança continuar.
Ah, Tupã, protege a caoba ! Pena Branca o maogani ! Deus salve a floresta
e o acajú que resta, a araputanga taguá.
Se há cabra safado é guru que ao se ver diante de um fato faz mais glu-glu-glu
que peru-de-roda e encobre o assassinato. Figurão de araque, banzai!
Eu assopro em cima e tu cai. Não vem com cascata : eu sou vira-lata, o anonimato é meu pai.
Cuspo em quem tem rei na barriga, morei no sereno, vivo ao léu.
Eu não procuro quem me siga, meu bloco sou eu e o povaréu.
Lá no Pará é que eu nasci, eu sou de mogno e de luz. E quando ferem minha arvre,
meu sangue é que escorre pela Cruz.
Eu vou rezar em Nazaré e crio caso, grito, insisto: torturar madeira santa
é que nem tacar fogo em Jesus Cristo.
no fuá , no forró , sou mais eu , sou maió.

(Para se obter 1m³ de mogno, são derrubadas 28 árvores de espécies diferentes. Para cada árvore abatida, cerca de 1450 m² de floresta são danificados e os danos são irreversíveis.)

MADEIRAS E VIDAS NA AMAZÔNIA PARAENSE

A preocupação com a Amazônia paraense tem sido tema de muitas canções da música popular brasileira. Na composição Madeira de Sangue, do compositor Guinga, interpretada por Leila Pinheiro, no CD Catavento e Girassol (1996 EMI MUSIC LTDA), percebe-se na força da interpretação de Leila e na energia dos versos de Guinga o tom de denuncia sobre o que vem acontecendo à floresta amazônica e toda sua biodiversidade que tem sido alvo de pessoas que buscam o enriquecimento irresponsável e assassino.
 As árvores cujas madeiras são consideradas nobres, tem sido fonte de enriquecimento ilícito e motivo para assassinatos de pessoas com o compromisso de defender o meio ambiente. Em maio deste ano foi noticiado pelos meios de comunicação a notícia do assassinato do casal Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva, líderes do Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, na comunidade de Maçaranduba, a 50 quilômetros do município de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará. Maria e José Claudio eram filhos da região e integravam o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), organização não governamental (ONG) fundada por Chico Mendes.
De acordo com Atanagildo Matos, diretor da Regional Belém do CNS, o casal já havia sido ameaçado de morte diversas vezes por sua intensa atuação em questões referentes à associação de moradores da comunidade da qual foram líderes e também, segundo o diretor da Regional Belém, pelas inúmeras denúncias feitas na Polícia Federal, no Ministério Público e em órgãos como o Ibama e o Incra sobre as irregularidades ambientais cometidas na região, como extração ilegal de madeira.
Em junho deste mesmo ano, a Comissão Pastoral da Terra informou à imprensa o assassinato de mais um trabalhador rural no Pará, após supostamente ter discutido com representantes de grandes madeireiros que estavam extraindo madeira de forma ilegal na região. Obede Loyola Souza, de 31 anos, foi morto na quinta-feira no Acampamento Esperança, em Pacajá, aparentemente com um tiro de espingarda dentro do ouvido, a 500 metros de sua casa. Souza, casado e pai de três filhos, teria se manifestado contra a extração da madeira e o fato de a atividade deixar as estradas de acesso ao acampamento e aos assentamentos da região intrafegáveis nesse período de chuvas.

“ASSASSINATOS EXPÕEM MAIS UMA VEZ VIOLÊNCIA CONTRA DEFENSORES DA FLORESTA AMAZÔNICA E OMISSÃO DO ESTADO”

"... E quando ferem minha árvore meu sangue é que escorre pela cruz"
 É com esse título que no dia 31 de maio de 2011, o Instituto Socioambiental relatou no seu site as atrocidades cometidas em terras amazônicas contra os defensores da terra. De acordo com o instituto, “desde 1985, Amazônia foi palco de mais de mil assassinatos de trabalhadores rurais e lideranças defensoras de direitos humanos. O Pará respondeu por mais de 600 casos. Ministério Público, movimentos sociais e organizações da sociedade civil cobram presença do Estado para atuar sobre as causas sociais do problema.”
Menos de uma semana após o assassinato do casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, no dia 30 de maio de 2011, o portal ORM informa no seu site sob o título “Testemunha é morta em Nova Ipixuna” a notícia da morte daquele que de acordo com os colonos que residem no assentamento Praialta Piranheira era uma das principais testemunhas da morte do casal de sindicalistas, o agricultor Herenilton Pereira dos Santos, maranhense, 25 anos. O jovem agricultor e um cunhado, de identidade não revelada, encontravam-se trabalhando em sua roça às margens de uma estrada vicinal, quando presenciaram, a passagem, a poucos metros deles, de dois homens em uma moto modelo Bros de cor vermelha, vestidos com jaquetas e portando capacetes. Um deles carregava uma bolsa comprida no colo.
As descrições da moto e dos dois motoqueiros coincidem com informações prestadas à polícia por testemunhas que disseram ter visto dois pistoleiros horas antes do crime, trafegando pela estrada vicinal fugindo provavelmente momentos após o duplo homicídio no dia em que os sindicalistas foram mortos. Herenilton Pereira teria visto os pistoleiros e foi alvejado com um tiro de espingarda, a cerca de 50 metros de uma estrada vicinal que dá acesso ao Lago de Tucuruí.
A morte desse agricultor que testemunhou a favor da tentativa de justiça ao crime de José Claudio e Maria denota o desmando abusivo daqueles que através da violência covarde comandam um império de terror que move milhões e que através dos tempos tem se tornado os senhores em uma terra em que seus interesses valem mais do que qualquer vida.

ZÉ CLAUDIO E MARIA DO ESPÍRITO SANTO


O casal era empenhado na melhoria da vida daqueles que dependiam da natureza da região amazônica e em projeto de sustentabilidade ambiental. Estavam a frente do Projeto Agroextrativista que de acordo com o publicado pelo site do Instituto Sócioambiental “é uma modalidade especial de assentamento, onde as atividades econômicas estão baseadas na extração manejada dos recursos naturais da floresta aliada à agricultura de pequena escala. Na Amazônia, em especial devido à grande preocupação com a preservação da floresta, esse tipo de projeto é desenvolvido levando em consideração as características das populações tradicionais da região”.
Extremamente preocupados com a questão ambiental, o casal vivia em seu lote onde colhiam castanha, andiroba, copaíba e cupuaçu, entre outros. Fabricavam óleos e artesanato. Os dois desenvolviam atividades de educação popular e ambiental. Maria era recém formada em Pedagogia e coordenava o programa loca do CNS sobre saúde da mulher. Juntos eles trabalhavam na execução do plano de manejo comunitário e desenvolviam atividades de educação popular e ambiental, organizavam mobilizações, cursos, palestras e oficinas em comunidades rurais com o intuito de formar novas mentalidades em relação às praticas de manejo sustentável da terra.
Ainda de acordo com informações do Instituto Socioambiental os dois ajudaram a criar, em 1997, o PAE onde moravam, com 22,5 mil hectares e 500 famílias, às margens do lago da barragem de Tucuruí. Também foram responsáveis pela criação da associação dos pequenos produtores da área. A partir daí, passaram a denunciar derrubada e compra ilegais de madeira. Os dois líderes vinham lutando especialmente para salvar as castanheiras, espécie protegida por lei que passou a ser visada pelos madeireiros com o fim das outras espécies de interesse comercial na região.
No site de relacionamento Orkut, após o assassinato do casal estava um apelo escrito certamente por alguém próximo, revelando a “voz” do casal em relação ao triste acontecimento:

Sobre FLORESTA
José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo

Fomos assassinados por fazendeiros e políticos corruptos, por defender as florestas, peço a todos que não cruzem os braços e deixem as florestas nas mãos de políticos e fazendeiros, se vocês cruzarem os braços em breve nossos filhos e netos, não vão ter mais água para beber.



Vocês que estão lendo, façam movimentos contra os desmatamentos das florestas não fiquem calados. 


As florestas pedem socorro.
Velório de José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo

Raimundo de Araújo Tocantins
Aluno do Programa de Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia - UNAMA

FONTES:

CD Catavento e Girassol – Leila Pinheiro (1996 EMI MUSIC LTDA).







quarta-feira, 29 de junho de 2011

Projeto Acredite Universitários

A primeira versão desse projeto, criado pelo canal Universal TV, perguntou para os maiores publicitários do Brasil no que eles acreditavam, claro que relacionado com a publicidade brasileira. Agora, eles querem saber a opinião dos universitários. Acho que é uma grande oportunidade para os que quiserem ter seu trabalho visto pelo país e pelo mundo, antes mesmo de se formar. Um grande começo. Vale muito!

Texto retirado do blog Acredite:

As férias estão chegando e essa é uma ótima oportunidade para você, que ainda não se inscreveu no Acredite Universitários, criar e enviar o seu trabalho para o projeto. As inscrições estão abertas desde 6 de junho e vão até 15 de julho.A segunda edição do projeto Acredite é uma chance para os novos talentos da comunicação divulgarem seus trabalhos e ideias e fazer parte de um livro histórico para a progranda brasileira!Então, mãos a obra! Coloquem a criatividade a todo vapor e respondam à pergunta: “Em que você acredita?”.Para participar basta se cadastrar no site http://www.acredite.tv.br/ e enviar seu trabalho!



quarta-feira, 25 de maio de 2011

OSGA 2011

O Curso de Comunicação Social  da Unama vem orgulhosamente convidá-lo para a 8ª Mostra de Filmes Universitários OSGA 2011, a grande festa de premiação dos melhores curtas realizados pelos alunos do 3° semestre de Propaganda e Publicidade.

Dia: 27 de maio de 2011
Hora: 19:30
Local: Unama BR (Auditório 1)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

MC's Guaranis: O que levou os garotos de uma reserva indígena em Mato Grosso do Sul a adotar o hip hop como cultura e a criar o primeiro grupo de rap indígena no Brasil.

Os olhos do índio Bruno Verón dizem que algo na aldeia não vai bem. Junto a três outros jovens da mesma tribo, ele tranca o sorriso, amarra o Nike e mira o alvo: o governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli. André está sentado na primeira fileira ao lado do prefeito de Dourados, Murilo Zauith, e de vereadores que inauguram com festa e discursos a Vila Olímpica Indígena da região, um espaço esportivo com campo de futebol e quadras de basquete. Bruno terá sua chance logo depois das meninas dançarinas da etnia terena. Assim que o locutor anuncia a entrada de seu grupo de rap, o Brô MC"s, o índio procura pelo governador na plateia e joga a lança: "Esta vai pra vocês que não conhecem nossa realidade, que não sabem dos nossos dilemas. Aldeia unida, mostra a cara!"
Goldemberg Fonseca/Divulgação
Goldemberg Fonseca/Divulgação
É nóis. Clemerson (E), Charles, Bruno e
Kelvin formam o Brô MC’s
A real que Bruno canta forte, em uma mistura de guarani e português, está bem perto daquele complexo esportivo de R$ 1,6 milhão cheirando a tinta. Sua casa de quatro cômodos é dividida entre ele, a mãe, o pai e cinco irmãos. O avô morreu espancado supostamente por capangas de fazendeiros que queriam os indígenas longe dali. O irmão mais velho escapou por pouco, mas leva um projétil alojado na perna. Na casa dos Verón, arroz e feijão são lei. Carne, pouca. Salada, "coisa de paulista". Mandioca brota no quintal. Banho, só de caneca. A geladeira está quebrada. A TV funciona. O Playstation, também. E sempre, a qualquer hora, os celulares dos garotos tocam Eminem, Snoop Doggy, Racionais, MV Bill e Fase Terminal.
O hip hop chegou às reservas indígenas de Mato Grosso do Sul como se fossem ali as quebradas do Capão Redondo. Para os filhos adolescentes das 15 mil famílias das etnias terena, guarani-caiová e guarani-nhandéva, era como se cada verso tivesse sido criado para suas próprias vidas. Se Mano Brown fala de conflitos entre pobres e policiais, eles têm pais e avôs retirados de suas terras a tiros pelo homem branco. Se MV Bill cita o tráfico de drogas, seus amigos estão cada vez mais fascinados pelo crack. "É uma das regiões mais problemáticas do Brasil", diz o antropólogo especialista no grupo guarani há 40 anos, Rubem Thomaz de Almeida.
A luva também serve quando o assunto é música. O ritmo duro e constante de uma expressão 90% percussiva estaria facilmente em um ritual caiová. "Eu não pensava nessas coisas antes do rap. Ele que me fez ver nossa situação", diz Bruno Verón.
Foi em Bruno e no seu irmão Clemerson que o ritmo bateu primeiro. "É nossa chance de sermos ouvidos fora da aldeia", diz o líder. Kelvin e Charles, os outros dois integrantes e também irmãos entre si, foram recrutados na escola. Apesar dos nomes, todos são legítimos guarani-caiovás. Há muitos jovens registrados com "nomes brancos" na aldeia, como se percebe em uma conversa rápida com os garotos sobre rock and roll. "E vocês conhecem os Beatles?" "Sim, o John Lennon mora logo ali", fala Charles, apontando para a vizinhança. Ele ri, mas é sério. John Lennon, Elton John, Jack, Jackson e Sidney Magal são índios de 16, 17 e 18 anos que também escutam rap. Os meninos andam pela reserva com camisetas do Eminem e dos Racionais MC"s, tênis de basquete, bonés coloridos e celulares tocando rap. Quando se encontram, tocam as mãos abertas e depois fechadas como se faz na cidade. Muitos aprendem a dançar break em oficinas ministradas pela Cufa (Central Única de Favelas). Em uma delas, Higor Marcelo, cantor do grupo Fase Terminal, conheceu os garotos e passou a produzi-los. "Fiquei maravilhado quando ouvi", diz. Higor fez um CD demo dos garotos e agora fecha a produção para o fim do ano de um primeiro disco do Brô MC"s.
Os ventos sopram a favor dos rappers da aldeia. A primeira vez que saíram de suas terras foi em setembro de 2010, quando fizeram um show nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Uma garrafa pet guarda a água do mar que Kelvin trouxe de Copacabana. "Era muito salgada!" São Paulo eles conheceram em dezembro, quando fizeram um show no Sesc Belenzinho. "É abafado, parece que não tem ar." Ele sorri de uma teoria sua sobre as placas das ruas que viu. "Anhanguera é um diabo velho. Anhangabaú é espírito mal do rio. A gente diz aqui que vocês foram a um pajé bêbado para dar nome aos lugares." Os Brô MC"s tocaram também em Brasília, na posse da presidente Dilma Rousseff.
E, assim, suas vidas vão ganhando instantes de fama. Clemerson é o mais procurado pelas garotas. "A gente dá autógrafo." Os olhos de guerreiro de Bruno são só para o palco. Fora dele, é um cavalheiro. Ao sair com o repórter pela aldeia de bicicleta, sugere uma caminhada quando sente o pulmão do parceiro saltando pela boca. Enquanto caminhamos, ele fala mais. Ao ver que o repórter usa aparelho dentário... "Eu tinha que usar isso, mas minha mãe disse que um raio poderia cair em mim." Ao passarmos por uma embalagem de camisinha jogada na estrada... "Aids aqui tem bastante, mas muitos meninos casam cedo, com 12, 13 anos." E ele? Não namora? "Namoro é como prisão, não dá pra fazer mais nada." Bruno é um cavalheiro e um sábio.
Um de seus raps se chama Tupã e mostra que o Brô MC"s já cria seu próprio discurso. "Aldeia, a vida mais parece uma teia / que te prende e te isola, não quero tua esmola / nem a sua dó, minha terra não é pó / meu ouro é o barro onde piso, onde planto / e que suja seu sapato quando vem na reserva fazer turismo / pesquisar e tentar entender o porquê do suicídio."
O alto índice de suicídio na tribo, sempre por enforcamento, atingiu o ápice em 2009, quando foram registradas uma morte a cada dois dias. "Até que uma criança de 8 anos se matou. Aí paramos para discutir", diz Nestor Verón, pai de Bruno. As explicações não fecham uma lógica. O enforcamento seria um simbolismo. O índio quer se expressar e não pode, então se enforca. Ou estaria passando por uma espécie de choque espiritual com a chegada de grupos religiosos cristãos. Nada é certo. "A alma de um suicida, acreditam eles, não sai pela boca, como deveria, mas pelo ânus. E então é incorporada por outro indivíduo que também irá se enforcar", diz o antropólogo Rubem Almeida.
Seja como for, o dilema se tornou combustível para a identidade de algo que já poderia ser chamado de "rap guarani". Afinal, um índio que se veste como Puff Daddy e diz "e aí mano?" afoga a tradição de seu povo? "A cultura não é estática. Ninguém vive fora do mundo", diz a professora de antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Lúcia Helena Rangel. O fenômeno pode aguçar pesquisadores, mas o poder público parece longe de abraçá-lo. Ao fim do show do Brô MC"s na inauguração da Vila Olímpica Indígena, o governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, é o único que não aplaude. "Não gostei, porque isso é música estrangeira. E eu sou nacionalista."

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Especial sobre Narrativas Orais do Marajó

    É pensando no significado que assume a oralidade como tradição cultural, que apresentamos o “Especial sobre Narrativas Orais do Marajó”, que tem como objetivo marcar a presença Tupi na formação das identidades socioculturais dos povos da floresta.
    Narrativas como “A Cidade Encantada, A Loira do São Pedro, Com Boto não se brinca etc”, nos ajudam a reconstituir uma memória a partir das relações que os habitantes do Marajó mantêm com a corporeidade, o ritmo da voz, as entonações, os nomes de objetos e lugares ao narrar as histórias que compõem o universo das linguagens e identidades marajoaras.

     Neste Blog, estaremos divulgando periodicamente o contar de moradores, herdeiros de saberes Tupi, que traduzem no seu modo de vida as experiências com a tradição oral como forma de organizar e explicar o mundo em sua volta.

Postado pelos alunos bolsistas do Projeto Nas Fronteiras das Narrativas Orais Tupi na Amazônia Paraense
Joel Pantoja
Maurício Correa
Pedro Leal
Raimundo Tocantins

Especial sobre narrativas orais do Marajó

            A Presença Tupi na Amazônia Marajoara

 

O arquipélago Marajoara, localizado ao Norte do estado do Pará, na Amazônia brasileira, é banhado pelo Oceano Atlântico e pela foz do rio Amazonas, sua extensão geográfica tem 50 mil Km2, é a maior ilha flúvio-marítima do planeta.
Divide-se geograficamente em: Marajó dos Campos conformado pelos municípios de Soure, Salvaterra, Cachoeira do Arari, Santa Cruz do Arari, Ponta de Pedras, Muaná e Marajó das Florestas composto pelos municípios de Breves, Afuá, Bagre, São Sebastião da Boa Vista, Curralinho, Portel, Anajás, Gurupá e Melgaço.
Os “Marajós” Comportam histórias de povos e culturas em contínuas mediações culturais que interagiram, negociaram, criaram espaços de luta e resistência a partir do processo de colonização com portugueses, africanos e, contemporaneamente, com outros países estrangeiros.
Neste território, destacaram-se as regiões de Campos e Florestas, cujas constituições de seus modos de vida, deixam ver populações herdeiras de linguagens e saberes Tupi ainda hoje muito presente na forma como se comunicam e conduzem seu dia a dia.

Uma História de Maria da Luz Pereira

Há muito tempo atrás, no rio Ituquara, município de Breves-Pa, dona Maria da Luz Pereira aos 89 anos (atualmente falecida em 04/05/2009), contava para sua família algumas narrativas para explicar fatos acontecidos.
Segundo Maria da Luz, em um belo dia, uma linda moça conhecida como Francidalva menstruou pela primeira vez aos 17 anos. Mesmo sabendo de todos os fatos acontecidos e contados por seus descendentes sobre o boto, saiu para andar de casco e, conforme as crendices do nosso povo, uma moça quando menstrua não pode ir ao rio por causa do boto. Pois ele sente o cheiro do sangue e persegue a mulher, pode até apaixonar-se por ela, foi o que aconteceu, o boto apaixonou-se por Francidalva.
Quando a moça completou 20 anos, casou-se e ganhou um pedaço do terreno da sua mãe Dalila Ramos dos Santos. Nesse local, a jovem construiu um pequeno tapiri para morar. Passaram-se pouco tempo, a moça engravidou. Ela começou a se tratar com sua mãe que era parteira e cuidava de algumas pessoas doentes que a procuravam. No mês que Francidalva estava para ganhar bebê, a moça não quis ir para junto de sua mãe, contrariando a tradição entre as parteiras de cuidar das mulheres paridas até findar o período de resguarde. 
Francidalva não quis ter o filho na casa de sua mãe, mas ela fez o parto e deixou-a em seu tapiri. O marido de Francidava, João Mateus, gostava de sair para peraquerar todas as noites e não entendia que sua mulher estando de resguarde poderia ser perseguida pelo boto, deixava ela sozinha. Os dias foram passando e Francidalva começou a ficar triste e indisposta, pois não conseguia nem levantar-se mais de sua rede. A sua mãe sendo muito esperta começou a perceber e entender tudo que estava acontecendo e falou para o marido de Francidalva “você precisa ficar de tocaia pra ver o que acontecendo com sua mulher!”.
Na noite seguinte, João Mateus fingiu ter ido peraquerar, fez um rodeio com seu casco no rio, entrou na mata e ficou de tocaia perto do tapiri pra ver o que acontecia. Em pouco tempo depois que ele saiu, o boto chegou e foi direto para a rede com a intenção de deitar com Francidalva. Então, o marido compreendeu toda aquela indisposição e veio com uma arma pra matar o boto que ali estava, transformado em homem, mas o boto foi atento, correu e pulou na água. Conforme Maria, o fato acontecido fez com que a família viesse morar na cidade.
 Autora: Maria da Luz Pereira
 Acadêmicos: Benedita do Socorro Pereira Pinheiro, Bibiana Farias dos Santos, Eliete do Socorro da Costa Marques, Iracema dos Passos Pinheiro
 Postado por Raimundo Tocantis, Pedro Leal, Joel Pantoja, Maurício Corrêa

Com Boto não se Brinca

Segundo, Joaquim Nunes da Costa tudo começou na vila Mainard, à margem do rio Jaburú, município de Breves onde vivia uma família evangélica de seis pessoas, uma delas, era um rapaz conhecido pelo apelido de Pretite.
Certo dia, Pretite e seu primo saíram da vila Mainard de canoa até o outro lado do rio para fazerem uma compra num pequeno comércio que lá existe. Na volta para sua casa aconteceu um fato estranho com eles.
De repente, vários botos começaram a boiar ao redor da canoa e os dois ficaram assustados com o que estava acontecendo. Então Pretite falou brincando: “Bem que uma bota dessa poderia vim dormir comigo hoje à noite lá em casa!” Isso ele falou por volta das 18:00 horas. O primo de Pretite respondeu: “Com boto não se brinca!”.
Estava muito bonito o luar, Pretite estava deitado em sua rede inquieto, não conseguia dormir. Às 23:00 horas, ele ouviu um barulho no trapiche. Pretite se levantou da rede, olhou pela brecha da parede e viu uma moça muito bonita, vestida de branco, olhos azuis, cabelos longos e loiros.
Ao vê-la admirou-se, mais em seguida sentiu medo. Pois a moça produziu um som ao andar como se estivesse de sapato alto, mas na verdade a mesma estava descalça e tinha os pés virados para trás. Nesta primeira noite, a jovem não entrou na casa e a meia noite ela desapareceu.
Na segunda noite, o fato se repetiu, sendo que desta vez ela entrou na casa. Pretite estava dormindo, acordou de repente e se assustou com a moça que estava olhando para ele na beira da rede e ela falou: “Você me chamou e eu estou aqui”. Logo se lembrou do que havia dito, quando voltava do comércio no momento em que foram rodeados pelos botos na canoa.
 Na terceira noite, os encontros se sucederam e eles se tornaram íntimos, porém sua família percebeu que ele estava agindo de forma estranha, pois parecia que ele andava falando com uma outra pessoa, a qual eles não podiam vê-la. Neste momento, sua mãe lhe perguntou: “o que está acontecendo com você? Suas atitudes mudaram, pouco tempo você dorme, anda inquieto como se estivesse sempre esperando algo”.
Pretite decidiu contar tudo para sua mãe. Com isso, sua mãe ficou muito preocupada, reuniu a família para tomarem juntos uma atitude. Como a família era evangélica, resolveram chamar o pastor para orar na cabeça de Pretite, com o objetivo de expulsar o espírito maligno. Mesmo depois das orações, não adiantou nada a intercessão do pastor porque a moça continuou suas visitas rotineiras.
Em uma noite de luar, a moça o convidou para ir ao trapiche, chegando lá ela tocou a água e lhe mostrou a imagem de seu mundo, sua casa e prometeu toda riqueza daquele lugar tentando de todas as maneiras convencê-lo a viajar para seu mundo, mas suas tentativas foram em vão.
Os dias passaram, o rapaz sem saber o que fazer com aquela situação tomou uma decisão, resolveu conhecer o outro mundo sem que sua família soubesse. À noite para sua surpresa, quando esperava ansiosamente pela moça, apareceu uma linda morena alertando-o de que não aceitasse nada de que a moça lhe desse para comer e estivesse sempre atento para qualquer outra tentativa, pois sua real intenção era levá-lo.
A partir do momento que ele fosse com ela, não teria mais volta, ele nunca mais veria sua família. Foi quando ele perguntou: “mas quem é você?” Ela respondeu: “Sou alguém do mesmo mundo que você quer conhecer, mas que quer o seu bem, por isso não vá para lá”. Depois, a moça se despediu e desapareceu na água.
Pouco tempo depois, a linda moça como de costume apareceu propondo algo novo, que deitasse juntos na mesma rede e assim aconteceu, ao tocá-la sentiu sua pele gelada e foi como se acordasse de um sonho, de imediato lembrou-se da palavra da moça morena que o alertara minutos antes. Levantou bruscamente da rede mandando-a ir embora, pois percebeu como era estranha ao tocá-la.
No dia seguinte, desesperado e com muito medo, sem que sua família soubesse procurou ajuda de um senhor mais antigo do lugar e este lhe aconselhou que mudasse para a cidade de Breves e na casa que fosse morar deveria ficar sete dias trancado. Pois seria a única maneira de afastá-la, mesmo assim, talvez tentasse novamente persegui-lo. Mas como ela vivia na água, não resistiria por muito tempo.
Por fim, ele se mudou para a cidade como previsto, a jovem ainda tentou persegui-lo, mas sua tentativa foi em vão. Ele se trancou em seu novo lar por sete dias. Logo nos primeiros dias ainda viu a moça pela brecha da casa, porém como continuou trancado o encanto se quebrou e ainda hoje o Pretite reside na Rua Sebastião Amado na cidade de Breves/Pa.
 Narrador: Joaquim Nunes da Costa, 69 anos de idade

Postado por: Pedro Leal, Raimundo Tocantins, Mauricio Corrêa e Joel Pantoja.

              

A Loira do São Pedro

A Cidade Encantada

Uma História de Ponta de Pedras

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Dia do Índio - Mês de Abril

Crianças Kaingang em Porto Alegre - Foto: Monica Cruvinel
Todos os anos, quando se aproxima o dia 19 de abril, o Dia do Índio, as escolas e a mídia logo se movimentam para "prestar uma homenagem ao "índio".
O grande problema desta história é que tanto a escola como a mídia, de uma maneira geral, falam de um índio genérico, como se fossem todos iguais, tivessem uma mesma cultura, falassem a mesma língua. Talvez fosse melhor dizer que dia 18 de abril é o dia dos Aikewára, dos Tembé, dos Mbyá-Guarani, dos Asuriní do Xingu, dos Ianomâmi, dos Maias, dos Incas...